Confesso que não tenho muito paciência para sentar e assistir desenhos infantis. Quando não tenho outra escolha por insistência do meu filho, o faço de fachada (ai ai ai) ou aproveito para prestar atenção no que se encontra por trás daquela “simples” ilustração. E foi dessa forma, que descobri que não gosto da Peppa. Desculpem-me os “Peppa lovers”. Eu também não tinha nada contra, mas depois de assistir efetivamente ao desenho, desgostei daquele enredo. Porque sim, a princípio, ela parece uma simples porquinha cor de rosa, mas por trás daquele desenho de traços simples reside um esteriótipo bem comum nos dias atuais, o declínio do poder paterno.

peppapig

No único dia em que parei para assistir ao desenho, nos três capítulos seguidos que assisti, me senti incomodada com alguma coisa. Então, percebi que a figura do pai é COMPLETAMENTE desvalorizada. Desde o frase super repetida “Papai bobinho“, o jeito bobalhão do Papai Pig, a exclusão dele em algumas brincadeiras…e aqui eu não entro em detalhes, como a teimosia da Peppa ou a paciência impossível da mamãe Pig, porque acho que a principal questão é mesmo essa descaracterização da figura do pai.

Vivemos uma geração de mulheres fortes, independentes e penso que precisamos (homens e mulheres) prestar mais atenção ao espaço ocupado pelos papais. Cansei de discutir esse assunto com psicólogos que conheço porque, realmente, ele está ficando muito evidente, recorrente e vem causando alterações sérias nas dinâmicas familiares. Sei que alguns homens preferem essa maior comodidade gerada pela força da mulher, mas em algum momento, esse desnivelamento pode ser prejudicial tanto para o casamento (às vezes, acontece aqui em casa), como para a criação dos filhos, que precisam da figura paterna (seja ela exercida pelo pai, pelo avô, pelo tio). Estudei em Psicanálise que é a função PAI que faz esse corte necessário e fundamental entre mãe e filho, portanto, quando a função é fraca ou inexistente, esse corte não é feito, o que pode causar alguns problemas futuros.

Por isso, aqui em casa não incentivamos mais a Peppa. Não que eu tenha proibido, porque sou contra extremismos, mas sempre ofereço outras opções de desenhos. Meu filho mais velho já sabe que não gosto do desenho porque expliquei para ele os motivos. Ele não concorda comigo e eu não discuto por isso. Apenas dou outras opções. Na verdade, aproveitamos essa decisão para desligarmos a TV ou colocarmos mais filmes ao invés de desenhos.

Gente, antes que alguém levante uma polêmica, essa é só a minha opinião e o meu ponto de vista. Não escrevo como autoridade da Psicologia, apenas como uma mãe que adora refletir sobre os assuntos que a rodeiam. Entendo que alguns irão dizer que seus filhos assistem e tudo bem, que é “só” mais um desenho. Penso que esse é o mesmo pensamento daqueles que dizem que passaram a infância comendo bolacha recheada e tomando nescau e que não morreram por causa disso, apesar de hoje terem acesso a informações do quão prejudicial são esses “alimentos”. Eu, Juliana, entendo que é de pequeno que construímos as crenças, os valores e os hábitos dos nossos filhos e que esse “tudo bem” aparente, pode não estar tudo bem, mesmo. Sei que a vida é corrida e que é difícil prestarmos atenção em todos os detalhes daquilo que acontece com eles, mas essa é mais uma das nossas funções como formadores de uma pessoa bacana: ficarmos atentos!

Também não acho que, simplesmente, assistir a um desenho irá tornar uma criança mal educada ou descaracterizará o papel do pai naquela dinâmica familiar, mas se você, assim como eu, acredita que somos aquilo que assistimos, que falamos, que pensamos, você também concorda que o que o seu filho assiste pode ajudar a construir aquilo que ele será. Ainda mais se essa descaracterização já ocorre naquele sistema familiar. Aquele desenho só irá reforçar a questão.

Pense que existem tantas outras opções de desenho e de outras atividades para entretê-los. Nos dias em que estou sem muita paciência para sentar e brincar, o que confesso que é bem frequente, espalho todos os brinquedos do meu filho no chão e deixo ele fazer a maior bagunça. Apesar de ser mais conveniente ligar uma televisão para terceirizar a atenção que não posso lhe dar, procuro faze-lo se esquecer dela. Porque prefiro passar horas guardando toda aquela bagunça do que depois passar anos tentando reverter uma crença construída na infância.

Beijos, Juliana Baron

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